Os saberes ligados aos engenhos de farinha de mandioca de Santa Catarina acabam de conquistar reconhecimento nacional como patrimônio cultural do Brasil. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) registrou as práticas tradicionais associadas aos engenhos no Livro dos Saberes, valorizando um modo de fazer que reúne alimentação, memória, território e convivência comunitária.
Mais do que um produto presente na mesa catarinense, a farinha de mandioca carrega uma história construída por diferentes povos e gerações. O registro reconhece conhecimentos agrícolas, técnicas de produção e práticas culturais transmitidas por comunidades indígenas, quilombolas e eurodescendentes, mantendo viva uma tradição que atravessa o litoral catarinense e segue presente em Florianópolis.
Uma herança que vem de antes do Brasil
Muito antes da formação do Brasil, povos indígenas como os Guarani e Tupi-Guarani já dominavam o preparo da mandioca. Foram eles que transformaram a raiz em alimento essencial, base de muitos modos de vida no território.
Com o passar dos séculos, esse conhecimento se somou a técnicas trazidas por açorianos e a saberes de origem africana. O resultado é uma prática cultural que vai além da produção de alimento. Nos engenhos, a farinha expressa pertencimento, trabalho coletivo e relação direta com a terra.
Documentário Farinhar registra personagens, saberes e territórios
Essa história também ganha registro audiovisual no documentário Farinhar, dirigido por Artur Hugo da Rosa e Carolina Maciel de Arruda. A produção apresenta os saberes e práticas tradicionais associados aos engenhos de farinha de mandioca de Santa Catarina, reunindo depoimentos de pessoas que mantêm viva essa cultura em diferentes comunidades do estado.
Com 17 minutos de duração, o filme é uma versão reduzida do longa-metragem produzido para instruir o processo de registro dos saberes dos engenhos como patrimônio cultural do Brasil. A obra foi realizada pelo Rancho Cultural, com participação do IPHAN, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e do Núcleo de Antropologia Audiovisual e Estudos da Imagem (NAUI/UFSC).
O documentário percorre engenhos, aldeias, quilombos e instituições ligadas à preservação da cultura alimentar catarinense. Em Florianópolis, entre os locais visitados estão o Engenho dos Andrades, o Engenho Indaiá, o Engenho do Jorge, o Engenho do Lício, o Engenho do Maurici, o Engenho do Neca, o Sítio Vale Encantado e o Quilombo Vidal Martins.
Assista à versão curta do documentário
O vídeo antecipa parte da força cultural registrada no filme: o som dos engenhos, o trabalho das mãos, o encontro entre gerações e a presença da farinha como elemento de identidade no litoral catarinense.
Onde a produção vira encontro
Nos engenhos, a produção da farinha é também um momento de convivência. A farinhada reúne famílias, vizinhos e comunidades em torno de etapas que exigem técnica, tempo e colaboração.
Raspar, ralar, prensar, peneirar e torrar são ações feitas em sequência, muitas vezes em ritmo coletivo. Cada pessoa participa de uma parte do processo, e o conhecimento circula na prática, na observação e na conversa.
Saber que passa de mão em mão
A produção da farinha envolve técnica, mas também sensibilidade. O ponto certo da torra não está escrito em manual. Ele é percebido pelo cheiro, pela textura, pela cor e pelo olhar de quem aprendeu fazendo.
Essa transmissão pela oralidade e pela experiência é um dos aspectos centrais reconhecidos pelo IPHAN. São saberes que não se preservam apenas em documentos, mas no cotidiano das comunidades e na continuidade das práticas.
Preservar também é um desafio
O reconhecimento nacional reforça a importância de proteger os engenhos e os territórios onde essa cultura acontece. A especulação imobiliária, as mudanças nas dinâmicas rurais e a perda de vínculos comunitários colocam em risco a continuidade da tradição.
A mobilização da Rede Catarinense de Engenhos de Farinha, com apoio do Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo (CEPAGRO), foi fundamental para o processo de reconhecimento.
Gastronomia que carrega identidade
Para Florianópolis, Cidade Criativa UNESCO da Gastronomia, o registro tem significado especial. Ele reafirma que a gastronomia não está apenas nos restaurantes ou nos eventos, mas também nos modos de fazer, nos territórios e nas comunidades que preservam a memória alimentar da cidade.
A farinha de mandioca é ingrediente, mas também é história. É alimento, encontro e patrimônio vivo.
Serviço
Lançamento do documentário Farinhar
Data: 15 de maio de 2026
Horário: 19h
Local: Antiga Alfândega, sede do IPHAN/SC
Endereço: Rua Conselheiro Mafra, 141, Centro, Florianópolis
Entrada: gratuita, sujeita à lotação